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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Do encantamento ao desprezo: a memória construída do indígena e o povo brasileiro





A chegada dos europeus à América, em 1492, é o marco do “encontro” entre povos nativos e os homens vindos do velho mundo. Amenizada para “descoberta”, a invasão cometida há séculos atrás, provocou uma verdadeira revolução cultural, territorial e política. Uns dos temas mais comentados pelos europeus sobre a América eram os nativos que aqui viviam. Viajantes com seus relatos despertaram muitas curiosidades nos povos de além mar. Títulos foram escritos inspirados nas histórias que se ouviam dos navegadores. Utopia, uma das obras mais influentes do século XIV, escrita pelo teólogo e humanista inglês Thomas Morus, foi uma coletânea de informações adquiridas em conversas com marinheiros irlandeses que haviam estado no Brasil. O livro indicava uma sociedade perfeita, igualitária e vivendo em plena harmonia. Era o encantamento sobre as populações nativas encontradas aqui. Michel de Montaigne, francês, também era um verdadeiro admirador dos Tupinambá. Pôde compreender a importância e o simbolismo do ritual de canibalismo praticado pelos mesmos, opondo-se aos julgamentos de que os indígenas eram “selvagens”. Rousseau, contrariando as teorias de Hobbes, escreveu que o homem é bom, a sociedade (capitalista) que o corrompe, afirmando assim que os únicos bons seriam as populações indígenas brasileiras. A dicotômica trajetória histórica do indígena ora como bom selvagem, ora como mau, perdura até os dias atuais.
Um estereótipo moldado desde o período colonial português ainda se mantêm presentes tanto na historiografia mais tradicional, como no imaginário de grande parte da população. A construção da memória histórica brasileira baseia-se em um indígena como “museu vivo”, ou seja, imutável, preso a um passado deveras distante.  Presentes apenas nos primeiros capítulos que se estudamos sobre a História do Brasil, os povos indígenas são omitidos como seres históricos que são. Pois eles são, senhores e donos de suas trajetórias históricas, pois “vivem na natureza, mas a modificam, criando novos ambientes. Agregam excedentes econômicos, criam sociedades complexas” (Gomes, 2013). Um exemplo de organização que poucos puderam compreender a fundo é o sistema de parentesco de algumas etnias.
Cada vez mais estudiosos da área indigenista encontram inúmeras evidências de eventos históricos interessantíssimos sobre as sociedades nativas americanas, reescrevendo a História Indígena mais próxima de sua realidade. Bertazoni (2013) descreve como eram as relações entre as sociedades incas e, as nem tão sistematizadas, sociedades amazônicas, pois “apesar dos conflitos (...) elas conseguiram estabelecer intercâmbios”. Episódio esse, até pouco tempo conhecido e desconhecido pela grande parte da população.
Toda a memória construída e presente até hoje sobre os povos indígenas deve ser revisada. Pois, antes da chegada dos europeus, o continente americano vivia dialeticamente e possuía uma história, como qualquer outro. Ao contrário de muitos viajantes da época em seus escritos descritivos sobre as sociedades indígenas afirmaram, só porque essas eram ágrafas não quer dizer que não davam importância ao seu passado. Ou que não tivessem uma história. Verificamos isso, ao perceber que praticamente todas as etnias têm seus mitos. Parecem fantasiosos? Mas é história. Em seus mitos, seus ritos e tudo o que podem produzir como grafismo, artesanato e até mesmo suas decisões contemporâneas, é história.
Acontece conosco não indígenas, não é mesmo? Somos identificados e afirmados como sujeitos históricos. Por que seria diferente com a população indígena? Somos possuidores, também, de memórias que não são nossas, concebidas durante os séculos, os anos que se passaram. Às vezes muitos dos fatos que consideramos como parte da nossa história nem vivenciamos, mas ela nos pertence. Estas memórias como seres sociais e históricos, nos permitem compreender nossa realidade, ter cautela ou evocar um fato passado para auxiliar em um acontecimento presente. As manifestações que tomaram o Brasil, por exemplo, foram às pessoas evocando um passado cheio de vontade de mudança, Nós jovens, não estávamos lá, mas sabíamos que poderíamos como brasileiros retomar a velha luta contra a impunidade. Essa memória coletiva advém das inúmeras memórias individuais durante toda a trajetória histórica. Inúmeros pontos de vistas formam a memória de todos, memória de uma nação.
Grande parte de nossa memória em relação às populações nativas foram fortalecidas pelos inúmeros enganos e pré-conceitos constituídos nos discursos do passado, que tomaram força pelo nosso desconhecimento sobre os mesmos. Entretanto, a memória indígena se mantém viva e continuamente florescendo para história. De suma importância, é ouvir essas vozes dissonantes, esses agentes históricos, para que nossa memória juntamente com a deles se tornem uma verdadeira memória coletiva e social. Para assim termos uma verdadeira identidade nacional. Todos nós reconhecemos o nosso pezinho na aldeia, nosso pezinho no quilombo, mas praticamente desconhecemos a realidade vivente dos brasileiros que se encontram nessa conjuntura. Uma identidade nacional vai muito além da fusão das “três raças”: branca, negra e indígena. Até porque o Brasil não se formou apenas por essas três etnias. O espírito da nação vem com o reconhecimento de nós nos outros brasileiros. Ou seja, por mais que tenhamos nossa identidade individual, nossos gostos particulares, a identidade nacional vem da assimilação de aspectos comuns que caracterizam os que compõem um Estado.
Contudo, os povos indígenas que também travaram suas lutas, foram atrás dos seus direitos e vontades, antes e depois da chegada dos portugueses, continuam compondo suas tramas históricas, ainda sofrem com a posição de subjugados e impostos a margem social. Infelizmente, há um enrijecimento no eterno pensamento sobre o indígena: o bom e o mau selvagem. Ora ele é puro, harmônico com a natureza, contra hidrelétricas e estradas em seus territórios. Ora é muito mau, pois vende madeira ilegalmente, utiliza-se da tecnologia, compra Hilux.
Acontece, que esse eterno pensamento dicotômico dificulta e muito para o reconhecimento das populações indígenas como pertencentes ao Estado brasileiro e verdadeiros cidadãos com direitos e deveres a serem cumpridos. É preciso um maior apoio e vontade de quebras os parâmetros de pensamentos tão consolidados, para que uma mudança profunda ocorra e essa memória distorcida seja modificada. Os povos indígenas, graças as suas lutas, conseguiram inúmeros reconhecimentos políticos, que por vezes não são cumpridos pelo seu desconhecimento social. Uma sociedade despreparada, quase sempre, comete muitos erros e esses erros sempre caem sobre a minoria subjugada da população.
 


Referências
BERTOZINI, Cristiana. A cordilheira e a Floresta. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, nº 91, pgs. 24-26, Abril de 2013.
CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. Identidade, Etnia e Estrutura Social. São Paulo: Biblioteca Pioneira de Ciências Sociais, 1976. p. 33-52.
GOMES, Mércio Pereira. Bom selvagem, mau selvagem. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, nº 91, pgs. 33-35, Abril de 2013.
HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 1990. p. 71-111.
SOUZA LIMA, Antonio Carlos. Um Olhar sobre a Presença das Populações Nativas na Invenção do Brasil. In: SILVA, Aracy Lopez da & GRUPIONI, Luiz Donisetti Benzi (Orgs.). A Questão Indígena na Sala de Aula. Novos Subsídios para Professores de 1º e 2º Graus. 1 ed. Brasília: Mec, 1995. p. 407-419.



segunda-feira, 24 de junho de 2013

Pataxó: Do nordeste para Minas.



Em uma das festividades habituais dos Pataxó de Carmésia/MG, tive a oportunidade de conhecê-los em uma visita técnica da faculdade. Minha inquietude e alegria de estar participando juntamente com os indígenas (minha paixão desde a mais tenra idade) de um dos mais importantes rituais, me fez querer saber mais sobre tudo aquilo e principalmente quem eram eles. Através de várias conversas informais com indígenas de diversas faixas etárias muitas outras questões foram surgindo.

Este é Aruiá (que em Pataxó quer dizer papagaio). Me encantei desde o começo, seus longos cabelos e seu olhar é lindo, não dá pra mostrar na foto a infinita beleza que este garoto de 13 anos contém. Ele me disse que pretende cursar alguma graduação que possa ajudar o povo dele.

Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome  o Monte Pascoal e à terra  a Terra da Vera Cruz. (Carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal)


Tendo sido o Monte Pascoal o primeiro avistamento de terras brasileiras, este se tornou um importante ponto turístico para a nação. Acredita-se que ali os portugueses desembarcaram inicialmente e tiveram o primeiro contato com os habitantes que aqui viviam, do outro lado do oceano Atlântico. Na época, a área era ocupada apenas pelos Tupinambás, que com o tempo foram desparecendo daquela área, não cabe aqui dissertar os motivos da dispersão dessa etnia. Nesse local foi criado em 1961 o Parque Nacional do Monte Pascoal, com 22.383 hectares de extensão, desses hectares apenas 8.600 hectares são destinados a reservas indígenas da etnia Pataxó, que desde 1861, “quando o governo da Província da Bahia reuniu comunidades indígenas dispersas na região de Porto Seguro em um único aldeamento”. Atualmente o parque é aberto à visitação com cobrança de entrada para os turistas e visitantes, recebendo todo o aparato e infraestrutura que um parque possui como hotel, restaurante e um centro de visitação com a história do Monte Pascoal.
Desde a criação do parque, os Pataxó que viviam naquela terra não puderam mais circular por ela, caçar ou pescar e continuar vivendo ali, já que foi transformada em unidade de conservação e criação do parque. Através de lutas e resistências travadas pelos indígenas, moradores da região, mais tarde alguns hectares foram disponibilizados para reserva indígena, os 8.600 hectares já citados acima. O dia 19 de agosto é um marco importante para os que conseguiram retornar a sua terra lar, a região onde situa o Monte Pascoal.

...conscientes de que o Parque Nacional está dentro dos limites de nossa terra, conforme a história de nossos anciãos, decidimos imediatamente RETOMAR o nosso território, neste dia 19 de agosto de 1999, protegidos pela memória dos antepassados, protegidos pelo direito constitucional [...] pretendemos transformar o que as autoridades chamam de Parque Nacional do Monte Pascoal em Parque Indígena, terra dos Pataxó, para preservá-lo e recuperá-lo da situação que hoje o governo deixou a nossa terra, depois de anos na mão do IBDF, atual Ibama, que nada fez a não ser reprimir os índios e desrespeitar nossos direitos. Queremos deixar claro para a sociedade brasileira, para os ambientalistas, para as demais autoridades que não somos destruidores da floresta, como tem sido proclamado [...] Vamos celebrar os 500 anos em nossa terra, receberemos os nossos parentes de todo o Brasil aqui, no Monte Pascoal, único local possível para construirmos o futuro com dignidade. [...] Mais uma vez pedimos o apoio de toda a sociedade brasileira.” (Carta do Povo Pataxó, 1999)




Segundo Lima (2011), “a chegada  dos Pataxó em Minas é consequência de dois fatos históricos importantes: o primeiro o famoso 'Fogo de 51', caracterizado pela ação violenta da polícia baiana que desarticulou  sua aldeia, dispersando o Povo Pataxó na região de Porto Seguro; e o segundo a transformação de 22.500 hectares de seu território em parque nacional - o Parque Nacional do Monte Pascoal, criado em 1943 e oficialmente demarcado no ano de 1961 - reduzindo nessa extensão o seu território tradicional.”
Pelo espaço limitado reservado para os indígenas, nem todas as aldeias puderam retornar à sua antiga morada. Diante disto, algumas continuaram dispersas em outras reservas indígenas estabelecidas pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI), são cerca de 10 povos indígenas que atualmente habitam Minas Gerais, no total, são 14,5 mil Pataxó em terras mineiras. São reservas como a constituída na Fazenda Guarani em Carmésia, Minas Gerais e agora, a Aldeia Geru Tucunã, no Parque Estadual do Rio Corrente, que luta pela demarcação da terra. 
    Os índios de Carmésia, atualmente, estão divididos em três aldeias: Imbiruçu, Retirinho e Sede. Cada aldeia tem sua escola, tendo uma quadra poliesportiva para uso comum. Apesar de ser, um mesmo povo, uma mesma etnia, cada grupo tem características bem específicas. Na aldeia Sede há uma grande ecleticidade e por vezes a cultura tradicional é mais praticada nos momentos específicos de festejos. Já a Imbiruçu é um meio termo, tentam cultivar as tradições, porém podemos perceber que não há muita resistência aos caprichos da sociedade moderna, há casamentos com não indígenas, por exemplo. Retirinho é aldeia mais tradicional, formada por uma única família, são bem conservadores. Não se misturam e praticam com determinação a cultura e arte pataxó.
Contudo, não haviam apenas estas três aldeias na reserva. Com o espaço territorial pequeno e já bastante explorado, a população da aldeia Alto das Posses, que hoje se tornaram a Aldeia Geru Tucunã, desde julho de 2010, estão estabelecidos no Parque Estadual do Rio Corrente, que fica entre os municípios de Açucena e Periquito, Minas Gerais. “Os grupos familiares constantemente têm reivindicado aumento do território à Funai e ao governo do Estado, o que tem sido negado. Portanto, a movimentação desse grupo, com certeza tem esse objetivo – buscar novo espaço para manutenção de sua sobrevivência física e cultural.” (CIMI, 2010)

Liderados pelo Cacique Bayara, cerca de 60 indígenas na época ocuparam a área. A situação atual de acordo com as notícias veiculadas no site da CEDEFES e nos jornais locais é que a terra ainda não foi demarcada e a comunidade exige melhorias na educação e saúde. A situação piora no que diz respeito aos embates com os posseiros com quem fazem divisa territorial, pois há violação de direitos humanos. As crianças que precisam estudar na escola da cidade sofrem constantemente com o bullying[1], falta de políticas públicas de saúde eficazes, entre outros.










[1] “(...) as crianças são discriminadas na Escola Cristiano Machado, no distrito de Felicina, por alunos e professoras. (...) a diretora da escola onde as crianças e jovens índios estudam (doze, ao todo) teria afirmado que "a escola virou um inferno" depois que os índios se instalaram na região.” (ALMG, 2013)













Referências:


LIMA, Ana Paula Ferreira de. As comunidades indígenas em Minas Gerais. 2011. Disponível em: <http://www.anai.org.br/povos_mg.asp#QUADRO> Acesso em: 27/05/2013
Povo Pataxó quer o Monte Pascoal de volta. Disponível em: <http://www.socioambiental.org/website/parabolicas/edicoes/edicao53/reportag/p03.htm> Acesso em: 15/09/2012
Povo Pataxó comemora 11 anos de retomada do Monte Pascoal. Disponível em: < http://www.torturanuncamais-sp.org/site/index.php/noticias/314-povo-pataxo-comemora-11-anos-de-retomada-do-monte-pascoal> Acesso em: 15/09/2012
Povo Pataxó de Carmésia. Disponível em:<http://www.cedefes.org.br/index.php?p=indigenas_detalhe&id_afro=5275> Acesso em: 15/09/2012
 O primeiro ponto de terra avistado pelos português. Disponível em: < http://ecoviagem.uol.com.br/brasil/bahia/parque-nacional/monte-pascoal/> Acesso em: 24/10/2012
Índios Pataxó ocupam fazenda em Açucena. Disponível em: < http://www.cedefes.org.br/index.php?p=indigenas_detalhe&id_afro=2797> Acesso em: 27/05/2013
Aldeia Geru Tucunã. Disponível em: < http://www.cedefes.org.br/index.php?p=indigenas_detalhe&id_afro=6863> Acesso: 27/05/2013
Comissão busca solução para conflito em Açucena. Disponível em: < http://www.cedefes.org.br/index.php?p=indigenas_detalhe&id_afro=10007> Acesso: 27/05/2013

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Raça, conceitos, Nietzsche e outras peripécias

 
 
Ao terminar a leitura do artigo de Guimarães, não pude deixar de me remeter a um estudo que me provocou bastante. Nietzsche sempre me encantou, desde seu Ecce Homo, o primeiro que li dele, apesar de ter sido o último publicado, e todos os outros livros deste grande filósofo que tive a oportunidade de ler, me trouxeram inquietações. Contudo, o estudo que me refiro não é do próprio, mas de Moisé(2005) que nos desmistifica toda a grande política da linguagem na visão do filósofo. Para ele todos os conceitos e signos não passam de uma negação da vida pela ideia, “o mundo, tal como se apresenta aos seres humanos, é pura transformação, e nenhum conceito capta tal maneira de existir”(Moisé, 2005).
 
No entanto, o que o artigo representa é uma enxurrada de conceitos em que o próprio homem se encarcerou, onde a vontade de nivelamento e a medo da pluralidade, o faz procurar subterfúgios em definições linguísticas e simbólicas, que desde o princípio a relação com os signos foi marcada por uma vontade de verdade. Pois é isso, para Nietzsche que define o homem, a linguagem, a capacidade de produzir conceitos com base nas“esquematizações das impressões” e é através desses conceitos, desta linguagem que os sistemas são mantidos, principalmente os de leis, de castas e os de (por que não dizer, para adentrar na discussão?) “raças”.
 
Já não bastasse a criação dos conceitos, o homem, por sua vez, acadêmico, cientista social, o dividiu em duas categorias: o conceito analítico e o conceito nativo.
 
O conceito analítico podemos entender como o próprio conceito acadêmico, onde será utilizado para analisar determinados fenômenos das relações sociais. Ele terá “sentido apenas no corpo de uma teoria”(p.63), que poucas pessoas terão acesso, além dos próprios acadêmicos. O conceito nativo, já é o conceito do mundo prático, efetivo, real. O conceito vivenciado pelas pessoas comuns, as próprias pessoas e relações do grupo que possivelmente poderá ser pesquisado.
 
O autor da prosseguimento a explicitar cada conceito sociológico estabelecido, seja analiticamente ou nativamente, como de nação, classe, comunidade, etc. Julgo não ser necessário, abster-me em descrevê-los aqui, mas fazer considerações importantes sobre certas assertivas de Guimarães. Principalmente pelo conceito mais evidenciado.
 
A trajetória que o termo raça vai seguindo pela história é tortuosa e infindável. Por vezes é classificatório, por outras pejorativo e também podemos encontrá-lo em situações ‘ufanistas’. Através dessa viagem pela transvaloração conceitual do termo, nos é afimado mais uma vez quão transitório são os significados e símbolos. Nietzschianamente falando, a linguagem e seus signos tem por princípio já o esquecimento, pois “a função da palavra é esquecer”. É se adequar as necessidades das relações humanas. E nessas relações humanas podemos subentender, se não evidenciar claramente, as relações ideológicas.
 
A ideologia, grande instrumento cultural de dominação, está por trás de toda a manipulação do conceito. Herman(1999) em seu livro analisa o idéia da decadência ocidental, principalmente por um grande preceito: a rejeição a civilização. E como se daria essa rejeição? Simples, através de estudos científicos em que comprovaria que não só os animais não humanos poderiam ser classificados por espécies e subespécies, mas também o animal Homem. Nesse sistema classificatório é que surgem brutalidades aceitas contra centenas de populações em que o único crime eram se enquadrar em conceitos pré-estabelecido pelos acadêmicos e estudiosos da época.
 
Ainda hoje, a discussão sobre se pode ou não falar em raça parece eterna e incessante, como também por vezes, carregada de valores pejorativos e justificativas hipócritas ou não para muitos conflitos sociais, seja para bem ou seja para o mal. Como demonstrado por Guimarães, militantes brasileiros em prol da cultura e ascendência negra chegam a afirmar claramente, que sua cor[1]é parda, mas sua raça é negra. Nos EUA, o sistema do censo classificatório ainda se diz em raça, ‘criando’ raças como latino e oriental.
 
E não seria qualquer raça, todas elas uma invenção? Concordando com Nietzsche mais uma vez, o poder do intelecto não está na simples dominação e sim na crença de que domina, e é através das invenções signatárias que construímos que vamos dominando e sendo dominados. Projetamos aquilo que gostaríamos de ser ou imaginamos que somos nas coisas, nos conceitos, na linguagem. O homem tem a necessidade de “esquematizar, simplificar, traduzir a pluralidade e a função do conhecimento é traduzir o desconhecido em conhecido”(Moisés, 2005).
 
Infelizmente, o homem nem sempre traduz, simplica ou conceitua de forma a perceber no outro a igualdade, a liberdade e a dignidade, tendo amor ao próximo. De toda e qualquer forma, depois da trágica Segunda Guerra Mundial e todas as perdas populacionais, o mundo tem pensado mais no SER humano, repensado nos seus conceitos e principalmente, nos seus pré-julgamentos. Pelo menos, em suas conveções, constituições e leis, os países tem estimulado muito o respeito as diferenças culturais. O que falta são os operadores do direito colocarem cada vez mais em prática essas determinações.
 
Para finalizar, penso que o termo Raça por deveras é ultrapassado. Posto que vivemos em um mundo puramente conceitual, outros poderiam cumprir bem esse papel. Falar em povo, etnia, ascendência, até mesmo nação soa bem mais magnânimo, pois exalta o ser e sua origem e não o classifica.

Referências Bibliográficas
GUIMARÃES, Antônio S. A. Raça, cor e outros conceitos analíticos in SANSONE, Livio, PINHO, Osmundo Araújo (orgs). Raça: novas perspectivas antroplógicas- 2 ed. rev. Salvador : Associação Brasileira de Antropologia : EDUFBA, 2008.
MOISÉ, Viviane. Nietszche e a Grande Política da Linguagem.Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,2005HERMAN, Arthur. A ideia da decadência da história ocidental. São Paulo: Editora Record, 1999.





[1] Guimarães atêm-se também a discutir sobre cor, mas para não ser muito extensa, explicitarei apenas o necessário, que é: cor é o termo classificatório mais utilizado pelo censo hoje no Brasil. Vem da ideia lá de 1950, em que “somos todos brasileiros e por um acidente temos diferentes cores”(p.72), mas não se fala em raça, “esta não existe, quem fala em raça é racista”(p.72).

terça-feira, 11 de junho de 2013

Sobre o etnocentrismo.



            O capítulo analisado da produção de Rocha (1980) é um panorama geral do que é o etnocentrismo. De maneira simples, poderíamos compreendê-lo resumidademente da seguinte forma: “nosso próprio grupo é tomado pelo centro de tudo” (p.07).

            Contudo, o etnocentrismo vai muito além da clara supremacia que uma cultura tende a estabelecer sobre a outra. Atitudes etnocêntricas ultrapassam o estranhamento e o pré-julgamento, podendo estabelecer relações conflituosas e repugnantimentes violentas. Como podemos analisar historicamente a brutal colonização das Américas pelos Europeus. Com a concepção de que os povos viventes aqui do outro lado do Oceano eram sociedades primitivas e selvagens, “infantis” na escala de “evolução”, os homens que aqui chegaram não demoraram muito a utilizar-se dessa assertiva para praticar seus atos mais vis e brutais.

            É claro, que o etnocentrismo não é uma característica comum somente a uma determinada sociedade. O etnocentrismo não escapa a nenhum grupo ou etnia, está presente em todas as culturas. E estejam elas onde estiverem, quando houver algum confronto de determinadas realidades, possivelmente haverão conflitos.
 
            Ainda assim, o que o etnocentrismo tem de mais terrível não é a supervalorização da própria cultura e a desmoralização da cultura do outro, mas o agir e pensar de forma a transparecer que o outro não tenha voz e nem vez. Que a voz do outro seja tão insignificante que não valha a pena ser ouvida, não levando em consideração que nenhuma cultura é estática e impassível de assimilar valores do outro. Pelo contrário, as culturas, apesar dos conflitos, estão em uma eterna troca de saberes de significados e valores.

            Inutilmente, o etnocentrismo continua existindo desde os primórdios da civilização e continuará até o fim dos tempos. Digo inutilmente, pois o pré-conceito, pré-julgamento é “é tão eficaz quanto mascar chiclete para tentar resolver uma equação de álgebra”. Afinal, quando estamos julgando a impressão que tivemos de uma realidade e nunca a realidade em si. Pré-conceitos, portanto, são inúteis, pois só temos a representação do real e não o real realmente.

            Felizmente, para tudo que há nesse mundo há também um contraponto. E a ideia que se contrapõe ao etnocentrismo, o autor ao final do texto vem nos ressaltar sobre a relativização. A relativização é “ver que a verdade está mais no olhar do que naquilo que é olhado” (p. 23). Ou seja, despir-se de sua própria visão discriminatória e ao menos tentar compreender o mundo através do olhar do outro. Perceber que a beleza disso tudo, desse mundo todo está nas diferenças, nos vários olhares que o próprio mundo tem.

 

Referências Bibliográficas
ROCHA, Everardo. Pensando em Partir. In: O que é etnocentrismo. São Paulo, Brasiliense, 1980.